19.2.13

Janela para o passado


Senhor Leví, homem de grande grandeza e avareza, passou as tardes de segunda e terça contando e relendo as cartas velhas e amarelas da adolescência. Eram tantas amizades que nem se lembrava mais. Não conseguia jogar fora nenhum dos velhos rabiscos de seu passado, que era tão diferente e tão longe, agora que se sentia velho e sem amor.
Ficava pensando se poderia ter se casado com uma das remetentes. E poderia compartilhar sua casinha nos fundos da praça Damásio, perto do posto de gasolina. Quando enjoava das cartas, gostava de ficar na janela, olhando o dia virar noite, e as mocinhas que passavam e lembravam seus tempos de escola. A quina do armário da cozinha remetia à trave do gol do colégio Madrepérola, onde se formou e nunca mais voltou. Sentia falta das aulas, de ler, de ver utilidade em viver. Já se passavam tantos anos desde as últimas felicidades, que ele já nem se lembrava muito do que havia esquecido…

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