11.2.13

Os piegas e os loucos


Todos os dias somos confrontados com o mundo. Nossos valores, costumes e personalidade enfrentam batalhas diárias contra o que existe lá fora e não faz parte de nós. Cada ser se define de uma forma, e gosta de ser definido de um determinado jeito. Até mesmo aqueles que querem parecer mais livres se definem como "indefinidos". Isso também é definição, além de um pouco de falta de identidade.
Vivo rotineiramente em contato com uma sociedade cheia de desvios, cheia de problemas morais. Não gosto de vida noturna agitada, de afogar mágoas em garrafas alcoólicas, de usar drogas ou andar pelas ruas vivendo uma vida de libertinagem. Desde pequeno a vida foi entre os muros de casa, com a família, ou na solidão acolhedora do aposento próprio. E essas características caminharam comigo até hoje, na vida séria, adulta. Talvez sendo até mais piegas do que quando infantil.
Mas apesar da rota seguida orgulhosamente, seja filosófica ou politicamente falando, alguns cenários de vida são extremamente sedutores perante a normalidade. Um dos maiores exemplos disso no meu caso são as obras do escritor beat Jack Kerouac.
A escrita de Kerouac, em romances muitas vezes autobiográficos chama a atenção dos olhos mais caretas que o possam ler. A sensação de liberdade, o despudor e a forma contagiante com que escreve faz com que aquele que lê desejasse um pouco aquela vida sem responsabilidades, perdida pelas ruas de São Francisco, onde as preocupações maiores são beber e escrever sobre a bebedeira de ontem.
Os locais frequentados, cenários muitas vezes de exibições horrendas de bêbados se pegando, sexo explícito e uso constante de drogas tornam-se atraentes justamente pela total ausência destes na rotina diária de uma pessoa, em tese, conservadora. A existência de limites autoimpostos traz consigo a ideia do errado, daquilo que não deve ser feito, por questão própria de princípios. E esse errado, mesmo que mentalmente, é passível de desejo e imaginação.
Particularmente, a faceta viajante da obra do escritor franco-americano é a que mais me chama atenção. As viagens, com poucos centavos no bolso, sem destino muito definidos, na dependência de caronas das mais variadas pessoas, arrumando trabalhos sazonais para subsistencia pelo caminho, para um apaixonado por viagens, é meio caminho andado para eclodir pensamentos pessoais nessas situações, muito provavelmente inspirando pessoas pelo mundo a fazer algo parecido.


A vida é denominada como chata e maçante por muita gente, com seus trabalhos e problemas pessoais, e ter ao menos na literatura beat de Kerouac uma forma de pensar livre é algo reconfortante. Ler realmente é viajar.
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*Na primeira foto, o escritor Jack Kerouac.
*Na segunda foto, a região do Big Sur na Califórnia (EUA), palco de um de seus melhores livros.

Um comentário:

Carol Nery disse...

Quando você disse que postou sobre Kerouac, pensei: Como a gente gosta da figura de um cara tão controverso?!!
Mas, pura verdade!! Lendo aquela biografia dele que me deu de presente então, fui mais a fundo em seu estilo alternativo de viver a vida.
O cara era um bêbado, largado, tinha um complexo de édipo irremediável, era desconfiado, machista, anti-semita, vivia 'traindo' os amigos e inúmeras 'qualidades' mais que poderia ficar por minutos aqui descrevendo. Tinha uma escrita louca, e um jeito de fazer livro que poucos compreenderia.
Essa sua gana em ser sucesso, em se fazer ler, se fazer vender... E sempre querer retratar o que acontecia com ele, com seus amigos, e com o meio que vivia lhe fez tão grande quanto é. Mesmo fazendo raiva em tanta gente. Mesmo praticamente perdendo amigos da vida toda.
O cara era louca. Desajuizado total. E sou tão fã de carteirinha, que quase me lança "On the road"! Vamô comigo?!!!
<3