Todos os dias somos confrontados
com o mundo. Nossos valores, costumes e personalidade enfrentam batalhas
diárias contra o que existe lá fora e não faz parte de nós. Cada ser se define
de uma forma, e gosta de ser definido de um determinado jeito. Até mesmo
aqueles que querem parecer mais livres se definem como "indefinidos".
Isso também é definição, além de um pouco de falta de identidade.
Vivo rotineiramente em contato
com uma sociedade cheia de desvios, cheia de problemas morais. Não gosto de
vida noturna agitada, de afogar mágoas em garrafas alcoólicas, de usar drogas
ou andar pelas ruas vivendo uma vida de libertinagem. Desde pequeno a vida foi
entre os muros de casa, com a família, ou na solidão acolhedora do aposento
próprio. E essas características caminharam comigo até hoje, na vida séria,
adulta. Talvez sendo até mais piegas do que quando infantil.
Mas apesar da rota seguida
orgulhosamente, seja filosófica ou politicamente falando, alguns cenários de
vida são extremamente sedutores perante a normalidade. Um dos maiores exemplos
disso no meu caso são as obras do escritor beat Jack Kerouac.
A escrita de Kerouac, em romances
muitas vezes autobiográficos chama a atenção dos olhos mais caretas que o
possam ler. A sensação de liberdade, o despudor e a forma contagiante com que
escreve faz com que aquele que lê desejasse um pouco aquela vida sem
responsabilidades, perdida pelas ruas de São Francisco, onde as preocupações
maiores são beber e escrever sobre a bebedeira de ontem.
Os locais frequentados, cenários
muitas vezes de exibições horrendas de bêbados se pegando, sexo explícito e uso
constante de drogas tornam-se atraentes justamente pela total ausência destes
na rotina diária de uma pessoa, em tese, conservadora. A existência de limites
autoimpostos traz consigo a ideia do errado, daquilo que não deve ser feito,
por questão própria de princípios. E esse errado, mesmo que mentalmente, é
passível de desejo e imaginação.
Particularmente, a faceta
viajante da obra do escritor franco-americano é a que mais me chama atenção. As
viagens, com poucos centavos no bolso, sem destino muito definidos, na
dependência de caronas das mais variadas pessoas, arrumando trabalhos sazonais
para subsistencia pelo caminho, para um apaixonado por viagens, é meio caminho
andado para eclodir pensamentos pessoais nessas situações, muito provavelmente
inspirando pessoas pelo mundo a fazer algo parecido.
A vida é denominada como chata e
maçante por muita gente, com seus trabalhos e problemas pessoais, e ter ao
menos na literatura beat de Kerouac uma forma de pensar livre é algo
reconfortante. Ler realmente é viajar.
--
*Na primeira foto, o escritor Jack Kerouac.
*Na segunda foto, a região do Big Sur na Califórnia (EUA), palco de um de seus melhores livros.
Um comentário:
Quando você disse que postou sobre Kerouac, pensei: Como a gente gosta da figura de um cara tão controverso?!!
Mas, pura verdade!! Lendo aquela biografia dele que me deu de presente então, fui mais a fundo em seu estilo alternativo de viver a vida.
O cara era um bêbado, largado, tinha um complexo de édipo irremediável, era desconfiado, machista, anti-semita, vivia 'traindo' os amigos e inúmeras 'qualidades' mais que poderia ficar por minutos aqui descrevendo. Tinha uma escrita louca, e um jeito de fazer livro que poucos compreenderia.
Essa sua gana em ser sucesso, em se fazer ler, se fazer vender... E sempre querer retratar o que acontecia com ele, com seus amigos, e com o meio que vivia lhe fez tão grande quanto é. Mesmo fazendo raiva em tanta gente. Mesmo praticamente perdendo amigos da vida toda.
O cara era louca. Desajuizado total. E sou tão fã de carteirinha, que quase me lança "On the road"! Vamô comigo?!!!
<3
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